quinta-feira, 3 de abril de 2025

Os (principais) líderes políticos que temos são como nós (genericamente) somos

Vulgares. Pouco competentes. Manhosos. Interessados muito mais nos seus objectivos pessoais do que nas metas que deviam ser as do país. Alheios às dificuldades e às preocupações dos portugueses, em nome dos quais (dizem que) fazem política.

E a líderes assim seguem-nos outros políticos (que também são) assim. Políticos que concordam com a afirmação de que as pessoas não estão bem, mas o país está. Se o diagnóstico fosse verdadeiro, os problemas resolviam-se tirando as pessoas do país. Ficava um país sem gente. E muita gente jovem, de valor, faz isso mesmo – vai-se embora. Ou, então, tais líderes fazem a política que trazem das «jotas», impulsivos e imaturos, indiferentes às consequências. Os extremos agradecem. E crescem.

É uma desilusão. O clima eleitoral é decepcionante. Não há esperança.

Aqui chegados, temos de falar dos cidadãos eleitores. Com quem se identificam eles? Porque elegem corruptos, alguns deles condenados pelos tribunais e outros ilesos, ainda que nada inocentes (perante factos inaceitáveis, de tipologia vária, sobejamente conhecidos)? Creio que é por serem medularmente iguais. A corrupção é aceitável, não faz mossa, e a maior (?) parte das pessoas praticava-a, se pudesse. E as crianças aprendem com os adultos: com o que eles praticam, muito mais do que com o que eles (lhes) dizem. O que se passa nas escolas, nas ruas e nos recintos desportivos é reflexo disso.

Em minha opinião não é elevadamente nobre, o povo. A pobreza não é certificado de honestidade, nem, muito menos, a riqueza o é.

Quem somos nós? Quais são os nossos valores? Que justiça exigimos? Que educação fazemos? Que exemplos damos?

Temos o que merecemos?

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 27 de março de 2025

Gato caçador de rãs e gaivotas consumidoras de lixo orgânico

É preto e está gordo e lustroso. Passa bons bocados à beira do lago da Escola Secundária Carlos Amarante (ESCA), atenção fixa – focado, como agora se diz – nos batráquios que vêm colocar-se sobre as pedras dos bordos. E então, ágil como diz quem vê, pode caçar uma, duas ou três rãs em pouco tempo, dilacerando e deliciando-se com cada uma, antes de passar à seguinte.

A sua distinção para murar (ou “arranzar”…?) quase dispensava o cuidado que a (minha) colega (professora) amiga de gatos lhe dedica, trazendo(-lhe) comida que coloca numa tigela ao lado da casota improvisada colocada ali perto, num canto abrigado. O bichano não passa(rá) fome e parece gostosamente adaptado a condições deveras favoráveis. A dona, pelos vistos, mora do lado de lá da rua e não precisa de se preocupar com a alimentação do tareco.

Porém, o felino não deixa de ter concorrência. Nas últimas duas décadas, elementos de uma (muito grande) colónia de gaivotas, aparentemente cada vez mais numerosa, sobrevoam diariamente céus e telhados de Braga, sendo que algumas delas também já descobriram as rãs do lago da minha escola, quem sabe se como abastecedor de suplemento aos resíduos alimentares mais ou menos decompostos a que se habituaram no aterro sanitário da Póvoa de Lanhoso. Estas gaivotas, diz o senhor Manuel Silva, chefe dos funcionários da ESCA, já podem ter perdido o hábito de pescar, “arte” porventura mais custosa na obtenção de comida.

Um e outro caso configuram rápidas mudanças adaptativas dos bichos em resultado das influências dos humanos na Natureza. Mudanças muito elucidativas e fáceis de observar.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 19 de março de 2025

O tempo é o quê?

Não há uma definição indiscutível de tempo. O nosso corpo desenvolve-se e fenece num determinado intervalo temporal, acumulando marcas que testemunham o devir e nos dão forte sentido da marcha inexorável do tempo. Isso e o registo de acontecimentos marcantes reforçam noções próprias de sucessões de fenómenos, mas não abarcam nem esclarecem todo o conceito e os seus possíveis significados, objectivos e subjectivos.

No campo subjectivo, as noções ou percepções ou explicações do tempo podem tornar-se vagas, indescritíveis ou incompreensíveis. É o que acontece nos sonhos, em que os tempos podem ser sucessivos, paralelos, regressivos ou reversos. Nesses casos, o tempo é como o sentimos: frequentemente de forma radicalmente… ilógica. Por analogia, a obra “Alice no País das Maravilhas” serve(-me) de exemplo (pouco esclarecedor).

Os homens da ciência também não atingiram clareza na matéria.

A solução do problema agrava-se porque nós, que colocamos a questão, também não sabemos o que somos, no fundo. E como poderíamos nós conhecermo-nos – nós como objecto de estudo de nós mesmos - em toda a plenitude? As dúvidas sempre subsistirão, em quaisquer tempos, mesmo os alternativos àqueles em que (e onde?) vivemos, se existirem, como se pode especular.

São diferentes os tempos em diferentes regiões do universo, como são diferentes os tempos em cada lugar, se medidos de modo diverso, linear ou não.

À mercê do(s) tempo(s), somos substância e (in)consciência desse(s) tempo(s), cuja natureza nos escapa.

Seja como for, que nunca nos abandone a esperança de «tempos felizes».

José Batista d’Ascenção

domingo, 16 de março de 2025

O TEMPO QUE ESTAMOS A VIVER

Texto gentilmente cedido pelo Professor Galopim de Carvalho

“Nenhuma democracia resiste sem um módico de confiança por parte dos cidadãos” – escreveu António Barreto no passado dia 7 de Setembro, no Sorumbático, o Blogue em que, regularmente, participamos. Este respeitado sociólogo disse por palavras suas o que penso sobre o tempo que estamos a viver.

O socialista Fernando Medina, em obediência à posição da sua bancada, votou contra a moção de confiança do passado dia 13, mas, no final da votação, escreveu que estas legislativas antecipadas irão agravar "os níveis de confiança dos portugueses na política e nos políticos", numa posição que coincide com a minha e a de Barreto.

Nesta conjuntura ganha o desinteresse e a consequente abstenção e ganha o partido Chega que, imediatamente, lançou a sua campanha às legislativas, para daqui a dois meses, com um ignóbil cartaz onde escreve “50 ANOS DE CORRUPÇÃO”, mostrando, sem sombra de dúvida, o seu propósito de destruir os cinquenta anos da democracia que, na sua imperfeição e nos seus erros, lhe deu nascimento e lhe dá toda a liberdade de actuação.

Julgo ser evidente, para os que não andam distraídos, que Portugal atravessa uma deplorável crise, não do foro económico, financeiro ou social, mas dos partidos, dos políticos e dos seus protagonismos na condução da política nacional. Uma crise de valores sem precedentes. Face a esta situação que “bateu no fundo”, no debate da citada moção, a confiança nestes políticos perdeu-se. 

Como já escrevi, à semelhança do que se passou com a Primeira República, a generalidade da classe política, a quem os Capitães de Abril, há 45 anos, generosa, honradamente e de “mão beijada” entregaram os nossos destinos, mais interessada nas lutas pelo poder, esqueceu-se completamente de facultar aos cidadãos a cultura civilizacional necessária na sociedade que se quer democrática. Nesta infeliz situação, uma muito significativa parcela do povo, destituído dessa cultura, é presa fácil do populismo da extrema-direita. E é também por isto que, pelo menos, estes dois partidos se têm de entender, em defesa da democracia, que tanto custou a ganhar.

Sobre o tempo que estamos a viver, paira grande insegurança, a nível internacional, não só no que respeita à economia, com inevitável reflexo na vida nacional, como também no que envolve o espectro da guerra, com todas as consequências e sofrimentos que ela arrasta. Tudo isto são gravíssimas preocupações que se adicionam a outras, nacionais, como as das áreas da saúde, da educação, da habitação e outras. Preocupações relativamente às quais, no quadro presente, os citados partidos têm de procurar consensos. Os seus protagonistas já mostraram não terem sabedoria ou vontade para o fazer, pelo que há que encontrar entre os seus correligionários, quem o possa fazer. Chame-se Bloco Central ou outra coisa qualquer, mas é, no tempo que estamos a viver, o caminho a seguir.

Quem me conhece e tem acompanhado, desde sempre, as minhas intervenções e tomadas de posição públicas, sabe da minha independência dos aparelhos partidários e não espera de mim outro pensamento que não seja este. Sempre procurei pensar pela minha cabeça, na convicção de que a política partidária é uma arte ou, se quiserem, uma habilidade para manusear conhecimentos do foro das ciências políticas e sociais na conquista do poder. A nossa sorte depende, não só da competência dos respectivos dirigentes, mas, também do seu sentido ético. Desgraçadamente, competência e ética são atributos em falta no tempo que estamos a viver.

Termino dizendo que continuo a pensar como sempre pensei e que, no essencial, posso resumir dizendo que, independente de quaisquer disciplinas partidárias sempre estive do lado dos explorados contra os exploradores. Em termos teóricos, socialistas, sociais democráticos e democratas cristãos não podem deixar de pensar como eu. Assim sendo e tendo em conta as condicionantes nacionais e internacionais, explicito, dizendo que, sendo possível, quer o PS quer a AD deviam procurar encontrar, entre os seus, quem lhes restituísse a confiança perdida. Infelizmente, julgo saber que, nos dois meses que nos separam das eleições, não haverá tempo para que uma e outra dessas duas forças mudem as respectivas lideranças, o que não pode deixar de nos preocupar.

A. M. Galopim de Carvalho

Afixado por José Batista d’Ascenção

sábado, 15 de março de 2025

Avenças e desavenças

O termo “avença” não significa apenas uma quantia certa que se paga antecipadamente por serviços durante um certo prazo, significa também conciliação entre duas partes, acordo, etc.

A política caseira não está imune a avenças materiais, não apenas porque é feita por seres humanos com as qualidades e defeitos que (n)os caracterizam, mas, sobretudo porque os sistemas de controlo (também eles feitos por humanos) têm múltiplos buracos muito oportunos e de elevada (má) frequência, e porque a justiça, que devia ser cega, é convenientemente estrábica ou grotescamente zarolha, para além  de, nos casos graúdos, progredir à velocidade das lesmas, em vias pejadas de pontos “stop”, correspondentes a milhentos recursos accionados por quem pode pagar. A descrença do povoléu não conta para o efeito.

Já as avenças conciliatórias entre políticos podem não ser muito sinceras, mas sempre vão dando para manter uns quantos lugares, aceder a eles ou distribuí-los a preceito por quem os há-de ocupar. As cadeiras de alguns deputados são um dos campos de aplicação da metodologia, que se estende a muitos outros, da política à finança e da finança à política, de que todas as instituições, a economia, a saúde e o bem-estar geral dependem.

Por outro lado, as desavenças político-económicas são reais, algumas, e muitas tornam-se subterrâneas, sem que lhes diminua a intensidade. Outra são mais ou menos convencionais, em propaganda para entreter a populaça, ao jeito do ora agora como eu, ora agora comes tu, logo comes tu mais eu.

Como a política se tem tornado um jogo pouco ético, às escâncaras, e a democracia não sabe ser firme com os que a apoucam e subvertem, servindo-se dela, vamo-nos aproximando do autoritarismo por voto democrático, até o mundo ficar nas mãos de loucos, criminosos e assassinos.

Em Portugal ainda não é assim, mas não há bons auspícios.

Precatemo-nos, enquanto é tempo. 

José Batista d’Ascenção

sábado, 8 de março de 2025

Trump e Putin e o receio da eliminação de Zelensky e da Ucrânia como país independente

Cruéis e temíveis, os líderes dos EUA e da Rússia empurram o mundo em direcção preocupante.

Trump e a sua equipa são capazes de tudo, nenhum escrúpulo ou dignidade parece fazerem parte do espírito com que cortam e costuram os seus negócios.

Putin tanto faz cair aviões com alguém que lhe seja indesejável (caso de Prigozhin), como envenena e tortura adversários que não tolera (como aconteceu com Navalny), como empurra de varandas meros intelectuais ou artistas que, em algum momento, expressem discordância das suas ideias e, principalmente, da sua prática política (como se verificou com o dançarino Vladimir Shklyarov).

A Ucrânia tem um duplo azar: situa-se na esfera de influência da Rússia e possui abundantes riquezas, muito cobiçadas. Enquanto povo, quis a independência, tem um líder muito corajoso, mas as condições sócio-políticas são-lhe extraordinariamente adversas. De um lado, Putin, para levar o que pode, e pode muito, pela ocupação de grande parte do território e pelo poderio das armas. Do outro o seu amigo Trump, para obrigar os ucranianos à rendição e empolgar os seus recursos.

A humilhação de Zelensky é apenas uma forma de remover um obstáculo.

Temo que consigam, usando os meios que forem necessários.

O (resto do) mundo assiste, impotente ou alheio.

As consequências podem ser terríveis para todos em todo o lado. 

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 4 de março de 2025

A aguda consciência da necessidade e da preciosidade da água, por Eça de Queiroz

A água limpa é um bem imprescindível, como sempre foi e será, cada vez com mais acuidade. Eça de Queiroz, em «Carta sobre a Inauguração do Canal de Suez», dá-nos conta disso, eloquentemente [in: fascículo «De Port Said a Suez». Ed. Centauro, Babel. 2010].

…«Ao lado do canal marítimo, o canal de água doce (…) é uma das maiores obras de Lesseps [engenheiro francês que liderou a construção do Canal de Suez] e um dos episódios mais notáveis da perfuração do istmo. Os operários do canal tinham de trabalhar no deserto. A primeira necessidade era a água; um exército de operários não podia subsistir durante muitos anos apenas com a água trazida pelas caravanas. (…) O Sr de Lesseps resolveu ir ao Nilo, a trinta e cinco léguas [1 légua = 5 km], buscar água doce e trazê-la ao deserto por um canal que seguisse uma linha quase paralela ao canal marítimo e fosse ter a Suez. (…) O canal seria, assim, para uso dos operários, para irrigação daqueles terrenos áridos, e para a navegação de pequenos barcos.» (p. 25-26).

(…)

«Suez tem tido, até há pouco tempo, um viver incompleto pela falta de água. Em Suez, a água era conservada em caixas de ferro, trazidas do Cairo. A água da fonte de Moisés, (…) a três léguas, só a podem beber os camelos. No tempo da chuva havia, além da do Cairo, alguma água potável a seis léguas de distância. No tempo de calma [calor do Sol] a sede era uma doença: havia mercados de água onde os preços eram fabulosos, horríveis. Os ricos bebiam uma água meio salubre. Os pobres bebiam a água dos camelos, ou morriam de sede. Em Suez não havia (…) uma árvore, uma flor, uma erva. Havia gente que, tendo sempre ali vivido, não fazia ideia da vegetação. Contava-se de árabes de Suez, que, vindos do Cairo pela primeira vez, fugiam das árvores como de monstros desconhecidos. O canal de água doce mudou esta face das coisas. (…) No dia em que a água chegou a Suez foi uma vertigem. Os pobres árabes não podiam crer; mergulhavam-se nela, bebiam até lhes fazer mal, (…) davam gritos loucos. Alguns estavam aterrados e pasmavam da perda de tanta riqueza.» (p. 30-31)

Hoje, em diferentes lugares da Terra, muitos sofrem a falta terrível de água. Opostamente, muitas pessoas desconhecem o perigo do desperdício ou da destruição «de tanta riqueza».

José Batista d’Ascenção